Islândia em uma semana: como dirigir pela Ring Road e ver o essencial sem falir - Hottora

Islândia em uma semana: como dirigir pela Ring Road e ver o essencial sem falir

Sete dias são o tempo exato que a maioria dos viajantes reserva para dar a volta na Islândia pela Ring Road, a estrada circular de cerca de 1.330 km que contorna a ilha e conecta praticamente todas as suas paisagens mais famosas: cachoeiras, geleiras, praias de areia negra, campos de lava e vilarejos de pescadores. É um prazo apertado, mas perfeitamente viável se o roteiro for bem planejado, o carro certo for escolhido e as expectativas forem realistas quanto à distância entre um ponto e outro. O erro mais comum de quem visita a Islândia pela primeira vez é subestimar o tempo de deslocamento: as estradas têm limite de velocidade baixo (90 km/h nas principais, 80 km/h em pistas de cascalho), curvas constantes e paradas inevitáveis para fotos, então dias de 300 km podem facilmente consumir seis ou sete horas ao volante.

Quando ir e o que esperar do clima#

A alta temporada vai de junho a agosto, quando os dias têm quase 24 horas de luz (o chamado sol da meia-noite) e todas as estradas, inclusive as pistas de montanha conhecidas como F-roads, estão abertas. É também a época mais cara e mais cheia, especialmente em pontos icônicos como a Lagoa Azul e o Círculo Dourado. Maio e setembro são um meio-termo interessante: menos turistas, preços de hospedagem mais em conta e ainda boa quantidade de luz solar, embora seja preciso monitorar o clima com mais atenção. Viajar entre outubro e março reduz drasticamente o custo e abre a possibilidade de ver a aurora boreal, mas a Ring Road pode fechar trechos em dias de nevasca, os dias têm poucas horas de luz e alugar um carro com tração 4×4 deixa de ser opcional. Para quem tem só uma semana e quer ver o máximo possível sem depender do clima, o verão continua sendo a escolha mais segura.

Chegando e alugando o carro certo#

Quase todos os voos internacionais chegam ao Aeroporto de Keflavík, cerca de 50 km a sudoeste de Reykjavík. Do Brasil não há voos diretos: as conexões mais comuns passam por Lisboa (TAP), Londres, Amsterdã ou Copenhague. Vale reservar o carro com bastante antecedência, principalmente no verão, quando os preços sobem e os modelos mais baratos esgotam. Para quem vai fazer a volta completa em julho ou agosto, um sedã compacto com tração dianteira já é suficiente, desde que o plano não inclua nenhuma F-road (as estradas de terra que cortam o interior, abertas apenas no verão e que exigem 4×4 por lei). Se houver interesse em desviar até o interior — para ver, por exemplo, Landmannalaugar ou Þórsmörk — um 4×4 é obrigatório e o seguro deve cobrir também travessias de rios.

Sobre seguros: o pacote básico costuma não cobrir danos causados por cascalho (chips no para-brisa são extremamente comuns) nem por rajadas de vento, que na Islândia podem arrancar a porta do carro se aberta sem cuidado em dias ventosos. Vale a pena contratar a cobertura de cascalho (gravel protection) e a de vento (sand and ash/wind protection) — parecem exageradas até acontecerem, e no interior islandês elas acontecem com frequência.

Um roteiro possível de 7 dias#

Não existe um único jeito certo de rodar a Ring Road, mas esta sequência equilibra distância, atrações e tempo de descanso para quem parte de Reykjavík:

  • Dia 1 — Reykjavík ao Círculo Dourado e Sul: Þingvellir (parque nacional e fronteira entre as placas tectônicas), a área geotérmica de Geysir e a cachoeira Gullfoss. Seguir até Vík ou arredores para pernoitar.
  • Dia 2 — Costa Sul: as cachoeiras Seljalandsfoss (dá para caminhar por trás da queda d’água) e Skógafoss, a praia de areia negra de Reynisfjara com suas colunas de basalto, e o vilarejo de Vík í Mýrdal.
  • Dia 3 — Geleiras e lagoa de icebergs: o Parque Nacional Skaftafell, com trilhas até geleiras como a Svínafellsjökull, e a Jökulsárlón, a lagoa onde blocos de gelo se desprendem e flutuam até o mar — inclui a praia de Diamond Beach, cheia de pedaços de gelo na areia negra.
  • Dia 4 — Fiordes do Leste: trecho mais tranquilo e menos visitado, com vilarejos de pescadores como Djúpivogur e Seyðisfjörður, boa oportunidade para respirar depois da correria dos dias anteriores.
  • Dia 5 — Norte, região de Mývatn: a cachoeira Goðafoss, o lago vulcânico Mývatn com suas formações de lava, as fontes termais de Mývatn Nature Baths (alternativa mais barata e menos lotada que a Lagoa Azul) e, se o tempo permitir, a cachoeira Dettifoss, uma das mais potentes da Europa.
  • Dia 6 — Akureyri e Fiorde Ocidental de Skagafjörður: a “capital do norte” tem boa infraestrutura para descanso, restaurantes decentes e é ponto de partida para observação de baleias em Húsavík, um desvio que vale a pena se houver tempo extra.
  • Dia 7 — Retorno a Reykjavík pela Snæfellsnes ou direto: quem tiver fôlego pode fechar com a península de Snæfellsnes, apelidada de “Islândia em miniatura” por reunir geleira, praias de lava e vilarejos charmosos em poucas horas de estrada; quem estiver cansado pode simplesmente completar o círculo e reservar a última tarde para a Lagoa Azul, já perto do aeroporto.

Regras de condução que fazem diferença#

A Islândia pune com multas pesadas quem sai da estrada para pisar em musgo (que leva décadas para se regenerar) ou estaciona em qualquer lugar fora das áreas demarcadas. Pontes de uma pista só (single-lane bridges) são comuns na Ring Road, principalmente no leste: quem chega primeiro tem a preferência, mas a lógica prática é sempre desacelerar e checar se há carro vindo do outro lado antes de entrar. O vento é um fator subestimado por quem nunca dirigiu no país — rajadas fortes podem desestabilizar o carro em trechos abertos, e a orientação local é sempre segurar o volante com firmeza e reduzir a velocidade quando o vento aumentar. Vale também baixar o aplicativo oficial road.is antes da viagem, que mostra em tempo real o estado de cada trecho da estrada, incluindo fechamentos por clima.

Abastecer o carro exige atenção: postos de gasolina somem em alguns trechos do leste e do norte, então o ideal é nunca deixar o tanque cair abaixo de um quarto. Muitos postos fora das cidades maiores funcionam por cartão, sem atendente — vale ter um cartão internacional habilitado para isso, já que alguns terminais pedem código PIN, incompatível com cartões que funcionam apenas por aproximação ou assinatura.

Onde ficar e quanto custa#

A hospedagem é, de longe, o item mais caro da viagem. Guesthouses simples fora de Reykjavík custam a partir de 120 a 180 euros a diária no verão para um casal, hotéis de categoria média passam facilmente dos 200 euros, e opções de guesthouse com banheiro compartilhado ou cabines simples ajudam a segurar o orçamento. Camping é a alternativa mais barata — o país tem uma rede extensa de campings equipados, muitos com cozinha comunitária, e um Camping Card (que dá acesso a dezenas de campings por um valor fixo) compensa para quem for ficar mais de quatro ou cinco noites acampando. Reservar com dois a três meses de antecedência no verão é praticamente obrigatório, já que a oferta de leitos é limitada fora da capital.

Orçamento diário e onde economizar#

A Islândia é cara mesmo para padrões europeus, mas dá para controlar o gasto com alimentação. Supermercados como Bónus (identificável pelo porco-chanchito cor-de-rosa na fachada) e Krónan têm preços bem abaixo de restaurantes, e montar sanduíches, massas e frutas para a maior parte das refeições reduz o orçamento diário de comida de 60-80 euros por pessoa em restaurantes para menos de 25 euros. Vale reservar uma ou duas refeições especiais em restaurantes locais — sopa de cordeiro (kjötsúpa), peixe fresco e o clássico hot dog islandês (pylsur) são experiências relativamente baratas mesmo comendo fora. Água da torneira é potável e excelente em todo o país, então levar uma garrafa reutilizável economiza dinheiro e evita comprar água engarrafada, que é desnecessária ali.

Erros comuns que encarecem ou estragam a viagem#

  • Subestimar o tempo de trajeto e tentar encaixar atrações demais em um único dia, o que gera cansaço e corrida contra o relógio.
  • Não contratar seguro contra cascalho e depois pagar caro por um chip no para-brisa, algo praticamente inevitável em estradas de terra.
  • Ignorar o aplicativo de previsão do tempo (vedur.is) e ser pego de surpresa por ventos fortes ou nevoeiro denso, especialmente nas terras altas.
  • Deixar para reservar hospedagem em cima da hora durante o verão, quando a maioria dos lugares já está lotada com meses de antecedência.
  • Achar que dá para ver as terras altas (highlands) em uma semana de Ring Road — elas exigem um roteiro à parte, com mais tempo e um 4×4 robusto.

O que colocar na mala#

Roupas em camadas são mais importantes do que qualquer peça isolada. Mesmo em julho, a temperatura raramente passa dos 15°C, e o vento faz a sensação térmica cair rápido. A combinação que funciona bem é uma primeira camada térmica, um fleece ou casaco intermediário e uma corta-vento impermeável por cima, que pode ser vestida e retirada conforme o clima muda ao longo do dia — o que acontece com frequência. Botas de trilha impermeáveis são essenciais para caminhar até cachoeiras e trilhas de geleira, onde o terreno costuma estar molhado ou irregular. Um traje de banho vale a pena levar mesmo em roteiros curtos, já que as piscinas termais naturais e as fontes geotérmicas espalhadas pelo país aparecem em quase todo roteiro, muitas vezes de forma improvisada em paradas no meio do trajeto.

Lagoa Azul: vale a pena e como evitar filas#

A Lagoa Azul (Blue Lagoon), perto do aeroporto de Keflavík, é provavelmente a atração mais fotografada do país e também a mais criticada por viajantes mais experientes, que a consideram cara e artificial se comparada às fontes termais menos conhecidas espalhadas pelo interior. Ainda assim, vale a experiência ao menos uma vez, principalmente encaixada no primeiro ou no último dia da viagem, já que fica a poucos minutos do aeroporto — uma forma inteligente de aproveitar o tempo de espera antes de um voo noturno sem desperdiçar um dia inteiro de roteiro. A entrada precisa ser reservada on-line com horário marcado, e reservar com pelo menos duas ou três semanas de antecedência evita ficar sem vaga, especialmente em horários de fim de tarde, os mais disputados.

Wi-fi, cartão SIM e comunicação durante o trajeto#

A cobertura de internet móvel na Islândia é surpreendentemente boa mesmo em trechos remotos da Ring Road, graças à baixa densidade populacional concentrada perto das principais estradas. Comprar um chip local (operadoras como Siminn ou Nova vendem pacotes de turista no próprio aeroporto) ou ativar um eSIM antes da viagem garante acesso a mapas, ao aplicativo de previsão do tempo e ao aplicativo de estradas mencionado anteriormente, ferramentas praticamente indispensáveis para quem dirige por conta própria. Mesmo assim, alguns trechos do interior e dos fiordes do leste ainda têm sinal instável, então baixar mapas offline como plano de contingência é uma precaução sensata.

Moeda e formas de pagamento#

A coroa islandesa (ISK) é a moeda oficial, mas na prática o país é quase inteiramente cashless — cartões de crédito e débito internacionais são aceitos até em pequenos quiosques de estrada e banheiros públicos pagos. Levar dinheiro em espécie é desnecessário na maior parte da viagem, mas vale ter um cartão sem taxa de conversão internacional, já que o volume de transações ao longo de uma semana de roteiro (postos de gasolina, pedágios de túneis, entradas de atrações) pode gerar custos extras relevantes em cartões com taxas altas de câmbio.

No fim das contas, uma semana na Islândia pela Ring Road entrega uma das viagens mais intensas e variadas que existem: geleiras, vulcões, cachoeiras gigantes e paisagens que parecem de outro planeta, tudo conectado por uma única estrada relativamente fácil de seguir. O segredo para não se sentir sufocado pelo ritmo é aceitar que não dá para ver tudo, escolher três ou quatro paradas por dia como prioridade absoluta e deixar o resto como bônus — se o tempo e o clima permitirem, ótimo; se não, sempre sobra motivo para voltar.

TS
Escrito por
Thiago Souza

Thiago vive entre consoles, apps de streaming e os melhores jogos para celular. Escreve sobre entretenimento com bom humor e olho crítico.

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