Ushuaia: o que fazer na cidade mais austral do mundo além de tirar foto na placa do fim do mundo - Hottora

Ushuaia: o que fazer na cidade mais austral do mundo além de tirar foto na placa do fim do mundo

Ushuaia se vende ao mundo como “o fim do mundo”, e a placa de madeira na entrada do Parque Nacional Tierra del Fuego, com os dizeres “Fin del Mundo”, é sem dúvida a foto mais repetida por quem visita a cidade mais austral do planeta. Mas resumir Ushuaia a essa imagem é desperdiçar boa parte do que a região patagônica argentina tem a oferecer: trilhas com vista para o Canal de Beagle, navegação entre colônias de pinguins e lobos-marinhos, esqui na temporada certa e um centro histórico que carrega toda a memória da antiga colônia penal que deu origem à cidade. Um roteiro de três a cinco dias em Ushuaia consegue equilibrar bem essas experiências, mesmo para quem está de passagem rumo a um cruzeiro para a Antártida.

Como chegar e quando ir#

O Aeroporto Internacional Malvinas Argentinas (USH) recebe voos diretos de Buenos Aires (cerca de 3h30 de voo) e, em determinadas épocas do ano, de outras cidades argentinas e chilenas. Do Brasil, a conexão mais comum passa por Buenos Aires ou Santiago do Chile. A temporada de verão austral, entre dezembro e março, concentra a maior parte dos visitantes, com dias longos (o sol pode se pôr depois das 22h em dezembro) e temperaturas amenas para os padrões patagônicos, girando entre 5°C e 15°C. É também a única janela em que os cruzeiros para a Antártida partem do porto da cidade. Já o inverno, entre junho e agosto, transforma Ushuaia em um destino de esqui e neve, com o Cerro Castor sendo uma das principais estações de esqui da América do Sul — uma face bem diferente da cidade que poucos brasileiros conhecem.

Além da placa: o que fazer no Parque Nacional Tierra del Fuego#

O parque nacional fica a cerca de 20 minutos do centro e vai muito além do ponto fotografado na entrada. A trilha Senda Costera, de cerca de 8 km, acompanha o litoral da Baía Lapataia e da Baía Ensenada, com boas chances de avistar aves e paisagens de turfeiras que lembram a tundra. Outra opção é a curta Senda Hito XXIV, que leva até o marco de fronteira entre Argentina e Chile, ou a Senda Cerro Guanaco, mais exigente, que sobe cerca de 970 metros e recompensa com vista panorâmica sobre o Canal de Beagle e as montanhas ao redor. Um jeito charmoso de conhecer o parque é pelo Trem do Fim do Mundo (Tren del Fin del Mundo), réplica da antiga ferrovia usada pelos presidiários para transportar madeira, com trajeto de cerca de uma hora até dentro do parque — vale mais pela experiência histórica do que pela paisagem em si, já que boa parte do trajeto pode ser feita a pé por valor bem menor.

Os passeios de barco pelo Canal de Beagle são, para muitos viajantes, o ponto alto da visita. As excursões de meio dia saem do porto de Ushuaia e passam pelo Farol Les Éclaireurs (conhecido erroneamente como “farol do fim do mundo”, embora o título oficial pertença a outro farol mais distante), pela Isla de los Lobos, com colônias de lobos-marinhos-sul-americanos, e pela Isla de los Pájaros, point de aves marinhas como cormorões. Passeios mais longos, de dia inteiro, seguem até a Estancia Harberton, a mais antiga da região, com parada na Isla Martillo, onde é possível caminhar entre uma colônia de pinguins-de-magalhães e, dependendo da época, pinguins-rei — essa excursão em particular precisa ser reservada com bastante antecedência, já que o acesso à ilha é limitado por regras de conservação.

Trilhas e natureza ao redor da cidade#

Ushuaia fica encaixada entre as Montanhas Martial e o Canal de Beagle, o que garante trilhas com vistas espetaculares a poucos minutos do centro. O Glaciar Martial, acessível por um caminho de cerca de 1h30 subindo a partir do teleférico (aerosilla), oferece uma das vistas mais completas sobre a baía e a cidade. Para quem tem um dia inteiro disponível, o Parque Nacional também permite trilhas de trekking mais longas, e a região da Laguna Esmeralda, a cerca de 40 minutos do centro, é um dos passeios mais recomendados por moradores locais, com trilha de dificuldade moderada até uma lagoa de água turquesa cercada por uma antiga área de castores (cujo impacto ecológico negativo, aliás, é tema recorrente entre os guias da região, já que a espécie foi introduzida artificialmente e alterou a paisagem nativa).

O centro histórico e a história da colônia penal#

Ushuaia nasceu, em grande parte, como uma colônia penal argentina no início do século XX, criada com a lógica de povoar uma região remota usando mão de obra prisional — em muitos aspectos, um paralelo com a história da Austrália. O antigo Presidio de Ushuaia hoje abriga o Museo Marítimo y del Presidio, que ocupa os corredores originais das celas e conta essa história com riqueza de detalhes, incluindo a rotina dos presos que construíram boa parte da infraestrutura urbana da cidade, entre eles a própria ferrovia que hoje é atração turística. Vale reservar de duas a três horas para essa visita, uma das mais completas da cidade em termos de conteúdo histórico. O Museo del Fin del Mundo, menor e mais focado na fauna e na cultura indígena Yámana (o povo originário da região, adaptado ao frio extremo mesmo sem vestimentas pesadas), complementa bem a visita ao presídio.

Trampolim para a Antártida#

Ushuaia é o porto de partida da maioria dos cruzeiros comerciais para a Antártida, e mesmo quem não vai continuar viagem sente essa vocação passeando pelo porto, repleto de embarcações de expedição atracadas entre novembro e março. Para quem tem interesse (e orçamento) para seguir até o continente branco, muitas agências locais vendem vagas de última hora com desconto significativo para viajantes que aparecem pessoalmente no porto, prontos para embarcar em poucos dias — uma estratégia arriscada, mas usada por quem tem flexibilidade de datas e quer economizar em relação ao preço cheio, que costuma começar em torno de 6 a 8 mil dólares por pessoa nos pacotes mais básicos.

Onde ficar e quanto custa#

A maior parte da hospedagem se concentra no centro, subindo a encosta a partir da Avenida San Martín, a rua principal de comércio e restaurantes. Hostels e hospedagens simples custam a partir de 25 a 40 dólares a diária por pessoa, enquanto hotéis de categoria média ficam na faixa de 100 a 180 dólares o casal. Vale considerar hospedagem um pouco mais alta na encosta: os preços não sobem muito e a vista sobre o canal compensa a caminhada extra. Restaurantes de frutos do mar, com destaque para a centolla (um tipo de caranguejo-gigante típico da região) e o cordeiro patagônico assado na cruz (asado al palo), custam entre 20 e 40 dólares o prato principal em casas turísticas — vale reservar ao menos uma refeição especial para provar a centolla fresca, item praticamente obrigatório do roteiro gastronômico local.

Dicas práticas#

  • O clima muda rapidamente mesmo em pleno verão — vestir-se em camadas é mais eficiente do que apostar em uma única peça pesada.
  • O vento patagônico é forte o ano inteiro; guarda-chuva costuma ser inútil, uma boa corta-vento resolve melhor.
  • Reservar os passeios de barco e a excursão à Isla Martillo com antecedência, principalmente em janeiro e fevereiro, alta temporada de cruzeiros antárticos, quando a demanda por atividades dispara.
  • Levar protetor solar mesmo em dias nublados: a camada de ozônio mais fina nessa latitude aumenta a exposição a raios UV.
  • Considerar ao menos um dia extra de folga no roteiro, já que voos para Ushuaia sofrem atrasos ou cancelamentos por vento com relativa frequência.

Esqui e neve: a Ushuaia de inverno#

Poucos brasileiros associam a Argentina ao esqui de qualidade, mas o Cerro Castor, a cerca de 27 km do centro de Ushuaia, é uma das estações mais completas da América do Sul, com pistas para todos os níveis e temporada que costuma ir de meados de junho a meados de outubro — mais longa que a maioria das estações chilenas e argentinas mais ao norte, como Bariloche, graças à latitude extrema da região. Além do esqui alpino tradicional, a estação oferece esqui cross-country e trilhas de neve, e a cidade em si ganha uma atmosfera completamente diferente no inverno, com decoração de luzes e uma vida noturna mais aconchegante nos bares ao redor da Avenida San Martín.

Fauna da região: o que esperar ver#

Além dos pinguins e lobos-marinhos já mencionados, a região de Ushuaia abriga uma fauna diversa adaptada ao clima subantártico. Condores-andinos costumam ser avistados em voos sobre as montanhas ao redor da cidade, especialmente na região do Glaciar Martial. Nas trilhas do Parque Nacional, é comum cruzar com raposas-fueguinas (uma subespécie local da raposa-cinzenta) e, com sorte, castores — embora, como mencionado, sua presença seja resultado de uma introdução artificial problemática para o ecossistema nativo. Nos passeios de barco, além dos lobos-marinhos, é possível avistar toninhas e, ocasionalmente, orcas de passagem pelo canal, dependendo da época do ano.

Moeda e como pagar na Argentina#

A instabilidade histórica do peso argentino faz da questão cambial um ponto de atenção real para quem visita o país. Levar dólares ou euros em espécie e trocá-los em casas de câmbio locais, ou usar cartões internacionais com boas taxas de conversão, costuma render um valor mais vantajoso do que pagar diretamente em cartão de crédito estrangeiro, cuja taxa de câmbio aplicada pelas bandeiras nem sempre acompanha a cotação real do mercado paralelo. Vale pesquisar a cotação atualizada antes da viagem e evitar carregar grandes quantias em espécie por segurança, preferindo trocar valores menores ao longo dos dias de viagem.

Perguntas frequentes#

  • Precisa de visto para brasileiros? Não, brasileiros entram na Argentina apenas com documento de identidade válido, sem necessidade de visto para estadias turísticas.
  • Quantos dias são suficientes? Três dias cobrem o essencial (parque nacional, canal de Beagle e museu do presídio); cinco dias permitem incluir trilhas mais longas e folgas para imprevistos de clima.
  • Vale ir só de passagem para a Antártida? Sim, mesmo sem embarcar rumo ao continente branco, Ushuaia é um destino completo por si só, com atrativos suficientes para justificar a viagem independentemente da conexão antártica.

Combinando Ushuaia com o resto da Patagônia#

Muitos viajantes usam Ushuaia como etapa final (ou inicial) de um roteiro mais amplo pela Patagônia argentina e chilena, combinando a cidade com El Calafate e a Geleira Perito Moreno, a cerca de 3 horas de voo, ou até com Torres del Paine, do lado chileno. Fazer essa combinação exige pelo menos dez a doze dias de viagem para não sobrecarregar o roteiro com deslocamentos apressados, mas recompensa com uma visão bem mais completa da Patagônia como um todo, do gelo continental às formações rochosas do fim do mundo.

Ushuaia é um desses lugares em que a paisagem faz o trabalho pesado, mas a experiência completa só aparece para quem sai da lógica do cartão-postal e reserva tempo para caminhar pelas trilhas ao redor da cidade, entender a história dura da colônia penal e sentir, ainda que por alguns dias, a sensação de estar mesmo no limite geográfico do continente americano. A foto na placa continua valendo a pena — só não deveria ser o ponto final da visita, e sim o início dela.

RL
Escrito por
Rafael Lima

Rafael acompanha lançamentos, tendências e bastidores do mundo da tecnologia há mais de uma década. Gosta de explicar temas complexos de um jeito simples, sem jargão.

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